Intervenções contemporâneas sobre a pre-existência de valor patrimonial: teoria, projeto e inserção no contexto urbano

O conhecimento da teoria do restauro não é garantia de respeito à cidade, mas, com certeza, constitui-se em um importante passo para a tomada de decisões conscientes que resultem da formação de um juízo crítico fundamentado na significância do bem e nos valores identificados. Tão importante quanto à atenção para com os valores identificados é a garantia de continuidade de utilização desses bens na atualidade e, portanto, a necessidade de adaptação destes aos novos usos, inseridos na dinâmica da cidade. O debate acerca da intervenção no patrimônio edificado aponta a existência de grupos com posturas bastante distintas, onde se destacam desde profissionais que defendem veementemente o princípio da distinguibilidade a grupos que permanecem na defesa de uma visão repristinadora e oitocentista de restauro. É importante destacar que, para qualquer uma das posturas que possam ser seguidas, a decisão projetual parte do reconhecimento do contexto urbano onde se inserem e de como se deseja “dialogar” com este contexto. O que nos parece importante, seja qual for a postura adotada, é a necessidade de reflexão e conhecimento sobre todas as opções que se colocam para o desenvolvimento de uma proposta embasada, coerente e consciente de suas consequências para a leitura da cidade. Em qualquer situação, o conhecimento profundo sobre o bem em que se deseja intervir, o contexto urbano onde este se insere e a adoção de procedimentos metodológicos claros são condições primeiras para o alcance de um resultado de qualidade. Decorrente destas reflexões, algumas questões se sobressaem: qual a contribuição teórica recente no ambiente italiano e como estas podem nos auxiliar na prática projetual sobre pré-existências de valor patrimonial? Como estas se relacionam com a Teoria Contemporânea da Restauração desenvolvida pelo espanhol Salvador Munoz-Vinas? Qual o papel do contexto urbano para a reflexão sobre categorias de intervenção? Não pretendemos aqui esgotar tais questões, mas sim dar continuidade a reflexões que entendemos como de grande importância para uma leitura crítica e consolidação de práticas teoricamente embasadas.
Assim, pretendemos atingir aos seguintes objetivos específicos:
(1) Explorar as principais posturas intervencionistas em voga no ambiente italiano, (“crítico-conservativa e criativa”, a “pura conservação” ou “conservação integral” e a “manutenção-repristinação”);
(2) Explorar as categorias de intervenção propostas por Giovanni Carbonara (“autonomia/dissonância”, “assimilação/consonância”, “abordagem dialética / reintegração da imagem” e “não-intervenção direta”) para identificar o confronto entre o novo e o antigo na prática projetual contemporânea no Brasil, sempre relacionando esta reflexão ao contexto urbano onde se inserem estes bens.
(3) Identificar as principais contribuições da Teoria Contemporânea da Restauração no que diz respeito à dimensão imaterial do patrimônio;
(4) Refletir sobre os limites e possibilidades de aplicação destes princípios nas práticas intervencionistas e na prática de gestão urbana locais, realizando uma análise de casos de intervenção no patrimônio espalhados pelo Brasil.

  • Pesquisador(es) Natália Miranda Vieira-de-Araújo
  • Ano 2017