DEPT e DDC: fotógrafos do Recife nas décadas de 1940 e 1950

A presente pesquisa se dedica a estudar o acervo de fotografias produzidas no âmbito da Diretoria de Estatística, Propaganda e Turismo (DEPT) e da Diretoria de Documentação e Cultura (DDC) da Prefeitura Municipal do Recife, nas décadas de 1940 e 1950, hoje sob a guarda do Museu da Cidade do Recife / Forte das Cinco Pontas.
Neste período de atividades, entre 1939 e 1959, cerca de 40 fotógrafos, entre profissionais e amadores, produzem cerca de 9 mil fotografias da cidade do Recife e do Estado de Pernambuco, cujos contatos fotográficos estão atualmente arquivados em 15 livros de tombo confeccionados na década de 1980, por ocasião da criação do Museu da Cidade do Recife, e organizados de maneira a reservar espaço para a imagem, fixada com cola, e espaço para a legenda manuscrita.

São fotografias que documentam a destruição da Recife colonial e eclética e o surgimento da Recife modernista. Além de quantitativamente bastante significativa, a produção desses fotógrafos é de inegável valor histórico, principalmente hoje em que a situação se inverte: não é mais a cidade colonial que está ameaçada como se vê nessas fotografias e sim a cidade modernista que se vê nascer nas imagens da DEPT e da DDC (Figs. 2, 3, 4, 5 e 6).

Esse conjunto de fotografias nos faz indagar sobre o universo de imagens produzido por cada fotógrafo, sobre os percursos que realizam na cidade, sobre os roteiros, as cartografias particulares que desenham com seus passos nas ruas. Faz-nos indagar, também, sobre o período de atuação de cada um, sobre a dinâmica das encomendas e das demandas a eles feitas pelas duas diretorias.

Ao fazer a identificação do universo de imagens capturado por cada fotógrafo e de seu período de atuação, a pesquisa dará conta de produzir um álbum digital com essas fotografias de cada um e de construir uma narrativa sobre o roteiro, o percurso urbano e temporal desses fotógrafos e, ainda, de reunir dados biográficos sobre eles.
A idéia é que podemos, de certo modo, considerar o álbum de cada fotógrafo como uma espécie de guia da cidade, porque ele sugere um roteiro de visitas, indica os lugares que devem ser vistos e, também, a maneira como eles devem ser vistos. Sabe-se que nesse período a Prefeitura anuncia sua intenção de publicar um guia da cidade do Recife para atualizar o guia que edita em 1935, mas que não chega a fazê-lo.

O projeto busca suprir duas importantes lacunas identificadas ao longo desses anos em que o acervo de fotografias da DEPT e da DDC vem sendo exaustivamente consultado no Museu da Cidade do Recife.
A primeira lacuna refere-se à ausência de estudos que se dediquem a esse acervo imagético tão significativo em sua totalidade, considerado a partir de sua origem na DEPT e na DDC, na historiografia da fotografia moderna em Pernambuco. Tal historiografia só começa a ser construída a partir da década de 2010, sobretudo com trabalhos de cunho biográfico dedicados a fotógrafos reconhecidos pela excelência de seus trabalhos e são ainda bastante pontuais e fragmentadas as contribuições presentes nessas publicações sobre o assunto dos fotógrafos e da fototeca da DEPT e DDC.

O que se propõe na pesquisa é estudar 40 conjuntos menores de imagens autorais dentro desse conjunto maior de 9 mil fotografias introduzindo a noção de série histórica e de subséries. Nesse sentido, ao abordar esse acervo na sua totalidade e trazer à tona uma gama bem maior de fotógrafos do que os que têm sido até agora estudados busca-se ampliar esse olhar da historiografia sobre a fotografia moderna de Pernambuco.
A segunda lacuna identificada refere-se à prática de consulta desse acervo, que atualmente é feita permitindo-se o acesso direto de pesquisadores e estudantes aos livros de tombo de números 1 a 15, que contêm os contatos fotográficos originais das décadas de 1940 e 1950, o que prejudica sua conservação pelo freqüente manuseio e exposição à luz.

Nossa proposta contempla a reprodução digital esses livros de tombo (1 a 15) que abrangem esse período, para que a consulta passe a ser feita a partir destes arquivos digitais por nós produzidos.
O que se pretende com esta investigação é dar um passo adiante no estudo e organização desse acervo de imagens, construindo um lastro para pesquisas e ações preservacionistas futuras que venham a fazer uso dele principalmente como ferramenta crítica para discutir a cidade atual e seu patrimônio moderno em risco.

Nessa perspectiva que queremos construir no sentido de abrir esse acervo para seu uso como ferramenta para discussão da cidade de hoje, algumas experiências devem ser consideradas, a exemplo daquela pioneira realizada em São Paulo por Julio Abe na década de 1970 ao expor na rua em grandes painéis as fotografias de autoria de Militão Augusto de Azevedo, situando-as exatamente nos mesmos pontos de visada escolhidos pelo fotógrafo no século XIX.
Ao introduzir uma reflexão sobre as práticas dos fotógrafos da DEPT e da DDC na cidade do Recife nas décadas de 1940 e 1950, escolhendo estudar a cidade a partir das questões da visualidade, a pesquisa cria uma interface entre os dois campos de estudos: o da História Visual e o da História da Cidade e do Urbanismo, trazendo para esse último campo a abertura para uma nova problematização, ainda muito pouco estudada nos tempo de hoje: a da dimensão visual dos fenômenos que envolvem a cidade.

Os resultados da pesquisa serão apresentados em um relatório no formato digital e serão discutidos também em Seminário organizado pela equipe destinado aos estudiosos da área e ao público em geral. Todo o material será disponibilizado para consulta no site do Museu da Cidade do Recife.

  • Pesquisador(es) Fátima Campello
  • Ano 2014